“Caixa de Música”

A TRAMA da IMAGEM
O vocabulário plástico de Kátia Costa é formado por trabalhos interativos voltados a construção de objetos que ocupam e transformam o espaço, pois ela os constrói dentro de outros espaços. Os verbos conjugados por esta inquieta artista são: fotografar, guardar, aparecer, desaparecer, multiplicar, lembrar, interagir, entre os vários que possuem um significado em sua trajetória.
A obra sobre a qual discorro neste texto: um móvel de proporções avantajadas que remete a uma caixa de musica é revestido do lado de fora por madeira e pelo lado de dentro, por espelhos. A obra realiza-se plenamente na ação do outro: de um sujeito convidado a entrar e interagir com o espaço. Kátia constrói espaços, mais do que isso, ela constrói sonhos, a partir do momento em que o sujeito se sentir envolvido pela obra.
Dentro da caixa de música o sujeito é surpreendido pela multiplicidade de percepções de si mesmo, as tramas da fantasia o levam a viajar pelo tempo refletido em uma série de imagens, onde cada uma delas parece estar em um tempo distinto. A memória transcende do simples pensamento a ação concreta de deixar-se levar pela música, pelas luzes, pela imagem da bailarina, o convite está feito: dance quem não quiser perder este momento de magia.
A experiência de vivenciar um tempo decorrido nos permite um antes e um depois. Um tempo dentro de outro tempo. Feita esta passagem, esta travessia, nunca mais seremos os mesmos, pois nossa memória efêmera até então, vai propiciar a sensação de um encontro com nós mesmos, um retorno ao passado para reavivar lembranças guardadas no inconsciente. O olhar vai perder-se através do rebatimento dos espelhos e o feitiço do tempo, cheio de vazios e de espaços para viver, vai nos tocar no que temos de mais frágil: a nossa vida. E esta vai achar-se e perder-se na imaginação, na vertigem, no abismo, no sonho…
A concepção estética da artista tem procedimentos voltados para uma especificidade particular da arte: a de instigar o participante, pois sem ele a obra não se faz. Kátia Costa assegura o ambiente necessário para uma verdadeira interação entre público e obra, onde a matéria tece relações com os sentimentos e deixa o tempo suspenso, nos provocando para uma reflexão sobre as fronteiras e os desdobramentos da arte contemporânea.
Ana Zavadil, Curadora de Arte.



Instalação multimedia da Kátia Costa.
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